Belo Monte !
Uma parte da conversa que a jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum teve com o professor Célio Bermann.
- O que o senhor diria para a parcela da população brasileira
que faz afirmações como estas: "Ah, se não construir Belo Monte não vai
ter luz na minha casa", ou "Ah, esses ecochatos que criticam Belo Monte
usam Ipad e embarcam em um avião para ir até o Xingu ou para a Europa
fazer barulho". O que se diz para essas pessoas para que possam começar a
compreender que a questão é um pouco mais complexa do que parece à
primeira vista?
– Não é verdade que nós estamos à beira de um colapso
energético. Não é verdade que nós estamos na iminência de um “apagão”.
Nós temos energia suficiente. O que precisamos é priorizar a melhoria da
qualidade de vida da população aumentando a disponibilidade de energia
para a população. E isso se pode fazer com alternativas locais, mais
próximas, não centralizadas, com a alteração dos hábitos de consumo. É
importante perder essa referência que hoje nos marca de que esse tipo de
obra é extremamente necessário porque vai trazer o progresso e o
desenvolvimento do país. Isso é uma falácia. É claro que, se continuar
desse jeito, se a previsão de aumento da produção das eletrointensivas
se concretizar, vai faltar energia elétrica. Mas, cidadãos, se informem,
procurem pressionar para que se abram canais de participação e de
processo decisório para definir que país nós queremos. E há os que
dizem: “Ah, mas ele está querendo viver à luz de velas...”. Não, eu
estou dizendo que a gente pode reduzir o nosso consumo racionalizando a
energia que a gente consome; a gente pode reduzir os hábitos de consumo
de energia elétrica, proporcionando que mais gente seja atendida, sem
construir uma grande, uma enorme usina que vai trazer enormes problemas
sociais, econômicos e ambientais. É importante a percepção de que, cada
vez que você liga um aparelho elétrico, a televisão, o computador, ou a
luz da sua casa, você tenha como referência o fato de que a luz que está
chegando ali é resultado de um processo penoso de expulsão de pessoas,
do afastamento de uma população da sua base material de vida. E isso é
absolutamente condenável, principalmente se forem indígenas e populações
tradicionais.
Mas também diz respeito à nossa própria vida. É
necessário ter uma percepção crítica do nosso modo de vida, que não vai
se modificar amanhã, mas ela precisa já estar na cabeça das pessoas,
porque não é só energia, é uma série de recursos naturais que a gente
simplesmente não considera que estão sendo exauridos e comprometidos. É
necessário que desde a escola as crianças tenham essa discussão,
incorporem essa discussão ao seu cotidiano. Eu também tenho uma
dificuldade muito grande de chegar aqui na minha sala e não ligar logo o
computador para ver emails, essas coisas. Confesso que tenho. Mas eu
também percebo uma grande satisfação quando eu consigo não fazer isso. E
essa percepção da satisfação é uma coisa cultural, pessoal, subjetiva.
Mas ela precisa ser percebida pelas pessoas. De que o nosso mundo não
existe apenas para nos beneficiarmos com essas "comodidades" que a
energia elétrica em particular nos fornece. Agora isso exige um esforço,
e a gente vive num mundo em que esse esforço de perceber a vida de
outra forma não é incentivado. Por isso é difícil. E por isso, para quem
quer construir uma usina, quer se dar bem, quer ganhar voto, quer
manter a situação de privilégio, seja local ou nacional, para essas
pessoas é muito fácil o convencimento que é praticado com relação a
essas obras. Por mais que eu tenha sempre chamado a atenção para o
caráter absolutamente ilógico da usina, das questões que envolvem a
lógica econômico e financeira dessa hidrelétrica, para o absurdo que é a
utilização do dinheiro público para isso, para a referência à
necessidade de se precisar, num futuro próximo, enfrentar um ritmo
violento de custo de vida, emitindo moeda para sustentar empreendimentos
como esse, é muito difícil fazer com que as pessoas compreendam a
relação dessa situação com as grandes obras. E Belo Monte é mais um
instrumento disso. Eu não sou catastrofista, não tenho a percepção
maléfica da hidroeletricidade. Não demonizo a hidroeletricidade. Eu
apenas constato que, da forma como ela é concebida, particularmente no
nosso país nos últimos anos, é uma das bases da injustiça social e da
degradação ambiental. Se não é pensando em você, você necessariamente
vai precisar pensar nas gerações futuras. Este é o recado para o leitor:
é preciso repensar a relação com a energia e o modelo de
desenvolvimento, é preciso mudar o nosso perfil industrial e também é
preciso mudar a cultura das pessoas com relação aos hábitos de consumo.
Nós precisamos mudar a relação que nos leva a uma cega exaustão de
recursos.
Pra ler:

Esse somos nós repetindo os erros de nossa história.
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