Qual é o teu (nosso) olhar ?



Autoria de Everaldo Lima e Luiz Luz, com colaboração de Engelis 

Conta a mitologia grega que Sísifo, condenado pelos deuses, teve que realizar um “trabalho contínuo, árduo e sem perspectiva”. Tivera que empurrar, eternamente, uma pedra até o alto da montanha e, antes mesmo de conseguir chegar ao topo, tal pedra rolava ladeira abaixo, sempre condenando o herói a ir buscá-la, tentando levá-la novamente ao topo. Talvez o problema de Sísifo estava no seu olhar: a posição que o mesmo exercia para levar tal pedra, até a montanha, o colocava, sempre, com o olhar para baixo. 

Uma outra história da saga mitológica grega está relacionada à Ícaro de Dédaro que, esquecendo-se do conselho do pai, voou tão alto, mas tão alto, que acabou tendo, devido à temperatura do sol, suas asas arrancadas (estavam emendadas por cera, a qual derreteu-se) e, por conseqüência, levou-o a grande queda em alto mar. Seu problema? Talvez fora o de olhar alto demais, ter olhado além do permitido pelos deuses maiores.

Qual o teu (nosso) olhar para? “De maneira natural”? Com o “Thaumas”, admiração, espanto filosófico? Indiferente? Tem sido um olhar a partir da dúvida metódica de René Descartes (Dúvida Cartesiana)? Pense bem! Reflita como está sendo o teu olhar.
 [...] Precisamos demarcar olhares diferentes: um olhar para novos projetos de vida, para um novo horizonte. [...]

Mas de que precisamos para melhorar o nosso olhar: segundo Rubem Alves, precisamos de “palavras”, já que “aprendemos palavras para melhorar os olhos”. Palavras nos tornam mais alegres, inteligentes, mais gentis; palavras geram olhares, que geram gentilezas. Parafraseando Gentileza, um grande poeta carioca, “Gentileza gera gentileza” que gera sensibilidades e habilidades. Para o nosso colega, professor e artista plástico, Engelis “Feijão”, vivemos o tempo do olhar, da leitura visual. Para ele vivemos o tempo de um olhar imagético e das divagações artístico-filosóficas do humano e, conseqüentemente, de todas as suas realizações. Percebo um olhar Nietzscheano, mas também apolíneo-socrático. Diríamos que o olhar humano, por si só, é uma bela obra de arte.

O olhar, em cada ângulo de visão, gera novos olhares, debates e conflitos. Protágoras diria que o olhar humano torna o homem “medida de todas as coisas”. Heráclito diria que este olhar, na luta dos contrários, faz do homem “um ser (e não-ser) modificável”, modificável e único.

[...] O olhar nada mais é que o reflexo da realidade vigente, da não-realidade. [...] Não seja como Sísifo (olhar cabisbaixo), mas não abuse como Ícaro (olhar alto sem perceber por onde coloca os pés) ou mesmo como Narciso (olhar apenas para si, para seu próprio olhar). Tenha colírios e olhos não-alucinógenos, voltados para o que há de belo na vida. Desvie seus olhos das respostas prontas e passe a olhar mais para as indagações, para as perguntas. Tenha olhos e olhares para vida, para o conhecimento, para esta grande obra artístico-filosófica: a humanidade.


Como cantam Ana Carolina e Seu Jorge: “É isso aí! Há quem acredite em milagres”. O maior milagre é termos olhares diferentes.

           

Comentários

Postagens mais visitadas